quarta-feira, abril 10, 2019

O Flamengo no New York Times...

Imagem: Dado Galdieri/The New York Times


Um incêndio matou 10 meninos no Brasil — e expôs um lado sombrio do futebol

Um incêndio em um campo de treinamento de jovens jogadores de futebol revelou que um sistema destinado a desenvolver novos atletas se tornou um mercado especulativo que engole milhares de crianças brasileiras.

Tariq Panja and Manuela Andreoni para o The New York Times

RIO DE JANEIRO — Mesmo depois da morte, a barganha continuou.

Christian Esmério seria “o cara” — sua família tinha certeza disso.

Ele tinha 15 anos e era alto, com um sorriso fácil que escondia sua habilidade entre as traves do gol.

Já se falava em contratos e em comprar uma casa para os pais, que haviam investido todas as economias no sonho de que o filho pudesse ser o próximo grande produto de exportação do futebol brasileiro — um novo Ronaldo, Romário ou Neymar.

Agora, do lado de fora de um prédio de escritórios do Rio, cercado por advogados, o pai estava atordoado pela dor do luto.

Dias antes, Christian morrera queimado em um incêndio no Centro de Treinamento de um dos clubes de futebol mais famosos da América do Sul, o Flamengo.

Ele foi uma das 10 vítimas fatais.

A tragédia revelou uma linha de produção do futebol internacional e levantou questões sobre um aparato brutal que engole milhares de jovens brasileiros para cada estrela que produz.

Era hora de descobrir a resposta para a pergunta: o quanto Christian realmente valia?

O jogo por trás do jogo

“Sonhos...”

A palavra flutuou no ar enquanto Rafael Stival deixou escapar um suspiro.

A empresa de olheiros de Stival publicou uma nota no Facebook lamentando a morte de três de seus pupilos vítimas do incêndio no Flamengo.

Desde então, as mensagens seguem chegando.

Porém, não de condolências. O post no Facebook tinha, inadvertidamente, funcionado como uma propaganda — um sinal para pais ambiciosos de que a empresa de Stival poderia colocar seus filhos não em qualquer clube, mas no grande Flamengo.

Queriam que Stival desse uma chance aos seus meninos.

A morte dos 10 meninos em um dos baluartes do futebol do Brasil revelou a maior linha de produção do futebol internacional: um aparato brutal que engole milhares de jovens brasileiros para cada estrela que produz.

É um mundo povoado por uma variedade de personagens, alguns atraídos pela glória, mas quase todos seduzidos pela chance de sair da pobreza, talvez alcançar a fortuna.

Há os meninos, claro, e suas famílias.

Há os investidores e os intermediários como Stival, que vasculha o país de dimensões continentais em busca de promessas que podem ter apenas nove anos de idade.

E há também os times, muitos em tal estado de desordem financeira que apenas a venda do último craque os salva da insolvência.

O lucro de investir com sabedoria, e cedo, em um único jogador pode chegar a dezenas de milhões de dólares.

Para muitos do ramo, a indústria cresceu descontroladamente e passou de um sistema destinado a desenvolver jogadores promissores para um mercado internacional que atualmente movimenta US$ 7 bilhões por ano, de acordo com a FIFA.

Neste ambiente especulativo, jovens atletas talentosos — alguns deles crianças — são comprados e vendidos como qualquer outra matéria-prima. No Brasil, os melhores são até chamados de “pedras preciosas”.

Uma noite de chamas

Ninguém sabe ao certo quantos meninos fazem parte do sistema de futebol infantil do Brasil.

Não há números oficiais.

As estimativas variam de 12.000 a 15.000, mas este dado é difícil de ser checado.

A Confederação Brasileira de Futebol não se esforça para registrar os jogadores até que completem 16 anos e se tornem profissionais.

Mas uma coisa é sabida: na noite do incêndio do Flamengo, em 8 de fevereiro, mais de duas dúzias de jovens— a maioria de famílias pobres e todos na esperança de realizar um sonho — estavam recolhidos em um dormitório do clube.

Em um país obcecado pelo futebol, o Flamengo se orgulha de ser o time mais popular, com recursos que causam inveja nos rivais em toda América do Sul.

Mas essa adoração e esse poder, ao que parece, podem ter permitido ao Flamengo escapar durante anos de qualquer punição pelo tratamento dado aos meninos sob seus cuidados.

Em 2015, promotores do estado do Rio de Janeiro processaram o Flamengo pelas condições de seu centro de treinamento.

Os procuradores mencionaram falhas na proteção dos menores, declarando que as condições eram “inferior até mesmo `aquelas atualmente ofertadas aos adolescentes em conflito com a lei”.

As autoridades emitiram uma ordem para interditar o centro em 2017, mas nunca a cumpriram, limitando as sanções a dezenas de multas.

Nos últimos anos, o Flamengo gastou milhões para melhorar sua escola.

No ano passado, os dirigentes do clube se gabaram de que as novas instalações seriam as melhores do Brasil.

Mas o dormitório que acomodava 26 meninos na noite do incêndio era uma estrutura improvisada, formada por seis contêineres de aço interligados.

Nunca havia sido inspecionado, segundo as autoridades locais.

Entrevistas com sobreviventes do incêndio e com autoridades que participaram do caso sugerem que uma série de falhas pode ter contribuído para as mortes dos meninos:

— A regulação federal exige pelo menos um cuidador para cada 10 meninos, mas não havia nenhum adulto presente no momento do incêndio.

— Sobreviventes disseram que a única saída ficava em uma extremidade do dormitório. Alguns garotos poderiam estar em camas mais longe do que os 10 metros exigido pela regulação.

— Os quartos tinham portas de correr, outra violação, porque elas podem emperrar.

— Ainda que cada quarto tivesse uma janela, elas estavam obstruídas por grades.

Um menino que estava no quarto de Christian disse a jornalistas que a porta travou quando ele tentou sair.

O garoto conseguiu se espremer através das grades da janela.

Mas Christian, um goleiro de 1,90 metro, não conseguiu.

Quando os socorristas chegaram, o corpo estava tão carbonizado que só pôde ser identificado por meio da arcada dentária.

Funcionários do Flamengo não responderam aos pedidos de entrevista.

Mas em fevereiro, o presidente, Rodolfo Landim, negou saber sobre irregularidades quando concedeu entrevista coletiva após o incêndio.

“Nosso objetivo é resolver esse problema o mais rápido possível”, disse ele.

Em busca de um Tesouro

O futebol não é o único setor que atrai os desesperados do Brasil.

Sergio Rangel, jornalista que cobre o esporte há três décadas, diz que o sistema de treinamento de jogadores de base recorda a gigantesca mina de ouro em Serra Pelada.

Suas terríveis condições foram imortalizadas pelo fotógrafo Sebastião Salgado nos anos 80.

Homens desesperadamente pobres de todo o país invadiram a mina a céu aberto, garimpando na esperança de encontrar a pepita que mudaria suas vidas.

O futebol também tem sido uma espécie de ouro dos tolos para muitas famílias — algumas das quais percorrem centenas ou milhares de quilômetros desde suas cidades de origem para matricular os filhos em programas de treinamento que classificarão, examinarão e, na maioria das vezes, rejeitarão as crianças como inúteis.

“Pegue um, examine e descarte se não for bom”, disse Rangel.

Os jovens não são apenas descartáveis.

Para aqueles que dirigem a indústria, são muitas vezes indistinguíveis.

Isso ficou claro em um serviço fúnebre para os 10 jogadores que morreram no Flamengo.

No meio da cerimônia, um funcionário do clube correu para cobrir uma grande montagem de fotos dos meninos: alguém percebeu que um sobrevivente fora incluído por engano.

O Centro de Treinamento

As ruas de Xerém, a cerca de 50 quilômetros do Rio, estão repletas de meninos de várias idades com camisas vermelhas, verdes e brancas — as cores do Fluminense.

Antes que o clube construísse seu centro de treinamento, Xerém não passava de um pântano, dizem os moradores locais.

Mas agora, apesar do calor úmido que ultrapassa 38 graus Celsius, tornou-se o lar de jogadores e famílias cujas vidas giram em torno do clube.

Entre eles, um garoto de 11 anos, apelidado de Maradoninha, por sua semelhança com o astro argentino Diego Maradona.

Mesmo nesta cidade altamente competitiva, Maradoninha atraiu uma atenção especial.

Há dois anos, um olheiro do Fluminense viu o garoto, cujo nome verdadeiro é Leandro Gomes Feitosa, disputar um torneio local e se aproximou de sua família.

O garoto tinha apenas 9 anos.

A legislação brasileira não permite que clubes de futebol abriguem crianças com menos de 14 anos.

No entanto, se a família se mudasse para o Rio, disse o olheiro, o Fluminense treinaria o menino.

Um grupo de empresários locais bancou o investimento — por uma fatia dos lucros futuros — e há dois anos a família viajou mais de 1.900 quilômetros, da cidade de Palmas para Xerém, para perseguir o sonho.

Quase todas as famílias que vivem na comunidade de 26 sobrados têm uma história parecida, disse o pai de Maradoninha, Evandro Feitosa.

Maradoninha pode não ter idade suficiente para cursar o ensino médio, mas ele sabe que o futuro da família está ligado às suas habilidades com uma bola de futebol.

“Se Deus quiser”, ele disse, “vou me tornar um grande jogador para ajudar minha família em Palmas, minha família aqui e aqueles que precisam”.

As chances de conseguir isso são pequenas.

Menos de 5 por cento das promessas do futebol no Brasil chegarão a ser profissionais, segundo a maioria das estimativas.

Menores ainda são as chances de ganhar um salário decente no esporte.

Um estudo publicado pela Federação Brasileira de Futebol em 2016 constatou que 82% dos jogadores de futebol do país ganhavam menos de 1.000 reais (US$ 265) por mês.

Aproximando-se do sonho

Quaisquer que sejam as probabilidades, sejam quais forem as dificuldades, há suficientes histórias de sucesso no futebol para alimentar as esperanças de crianças e famílias que têm pouco mais com que sonhar.

Existe o Neymar, tão bem-sucedido que é mais uma marca internacional do que jogador.

Ele é o produto de um humilde bairro nos arredores de São Paulo.

Existem Rivaldo, Ronaldo e Romário, três ex-campeões de Copa do Mundo, todos já premiados pela FIFA com o título de melhor jogador do planeta.

E, mais recentemente, está Vinicius Júnior, um brilhante atacante que saiu da escola do Flamengo.

Treinou nos mesmos campos que os 10 meninos que morreram.

Viveu o sonho: em 2017, quando tinha 16 anos, o clube espanhol Real Madrid concordou em pagar 45 milhões de euros (pouco mais de 198 milhões de reais) por seu passe depois de ter atuado apenas por 11 minutos em seu jogo de estreia.

Todos esses jogadores, e centenas mais, emergiram da fábrica de craques do Brasil e agora jogam nos principais clubes do mundo.

No começo da carreira, os pais de Christian gastaram tudo o que tinham — e fizeram empréstimos com amigos e vizinhos — para financiar o sonho de ver o filho se tornar um jogador de futebol.

Ele parecia estar se aproximando de sua própria versão da história de sucesso.

Em 5 de março, dia em que completaria 16 anos, estava previsto que assinasse o primeiro contrato profissional no Flamengo.

Seu sonho, de tantos anos, parecia ao alcance.

Ele morreu quatro semanas antes daquele aniversário.

Dias depois de sua morte, o pai, Cristiano Esmério, estava do lado de fora de uma torre de escritórios no centro do Rio, onde os defensores públicos se reuniam com representantes do Flamengo.

Ele estava com um grupo de advogados.

Um se dirigiu a ele.

Quando tratou da indenização, o advogado argumentou que seria injusto que Christian fosse tratado como os outros jovens.

Afinal de contas, disse, alguns dos meninos mortos eram recém-chegados.

Christian, no entanto, já fora convocado para uma das seleções brasileiras de juvenis.

Ele valia mais do que os demais.

Esmério assentiu em silêncio.

Ele e o filho também tinham falado de dinheiro.

“Pai, vamos procurar uma casa”, lembra o pai, contando sobre Christian reagiu quando recebeu a notícia de que estava fechando um contrato profissional.

“Com meu primeiro salário, quero uma casa para minha mãe, assim ela vai ter que sofrer mais por falta de água ou de luz”.

Uma semana antes de morrer, o garoto postou uma homenagem à família no Facebook.

Acima de duas fotos de pai e filho separadas por uma década, ele fez uma promessa:

“Todo o sacrifício será compensado, meu velho”.

 Imagem: Leo Correa/AP

Ruben Loftus e Olivier Giroud...

Imagem: Kieran McManus/BPI/Rex/Shutterstock

O mercado de patrocínio esportivo na Europa...


20 bilhões de euros chegou o mercado de patrocínio esportivo na Europa, segundo levantamento da European Sponsorship Association (ESA)...

Fonte: Máquina do Esporte

Um antigo duelo entre Alexis Sanchez e Heurelho Gomes...

Imagem: Stuart MacFarlane/Arsenal FC via Getty Images

A estetização do futebol europeu no jogador brasileiro... Mesmo com o crescente fortalecimento financeiro dos clubes brasileiros, a venda de jovens talentos ainda é uma dura realidade que enfraquece o futebol nacional.

Imagem: Jan Kruger/Getty Images

A estetização do futebol europeu no jogador brasileiro

Mesmo com o crescente fortalecimento financeiro dos clubes brasileiros, a venda de jovens talentos ainda é uma dura realidade que enfraquece o futebol nacional.

Se em outros tempos a necessidade era financeira para clubes e atletas, hoje passa pela vontade dos jogadores em viverem o ‘sonho europeu’.

Por Pedro Henrique Brandão Lopes/Universidade do Esporte

Na última semana a CBF anunciou um considerável aumento na premiação do Campeonato Brasileiro que passará a render o dobro dos valores de anos anteriores aos campeões e os melhores colocados.

A medida segue uma tendência dos últimos anos que tem valorizado os campeonatos nacionais.

Em 2018, a Copa do Brasil passou a ser a competição mais rentável da América, proporcionando uma premiação ao campeão superior aos 70 milhões de reais, isso desconsiderando os direitos de TV repassados fase a fase aos clubes.

Definitivamente o futebol brasileiro entrou no radar dos grandes patrocinadores que, ano após ano, investem cifras cada vez maiores para comprar os naming rights de campeonatos e arenas, para estampar suas marcas nas camisas dos clubes e associá-las a qualquer produto que envolva o futebol como pacotes de TV a cabo e fantasy games.

Seguindo a tendência, os clubes que estão na elite do futebol brasileiro dispõem de orçamentos milionários e aumentam cada ano mais suas folhas salariais pagando ordenados de padrão europeu a seus atletas.

O estrago produzido por anos de amadorismo na gestão do futebol nacional (não que hoje tenhamos gestores profissionais, mas melhoramos muito em relação aos anos 1970/80 e 90 quando o êxodo de jogadores esvaziou tecnicamente nosso campeonato) criou a estética de carreira perfeita no imaginário do jogador brasileiro.

Ao surgir um jovem talento atualmente, é quase que inevitável a ida deste à Europa.

Mesmo que seja para um time do leste europeu ou um clube sem tradição dos grandes centros.

A questão é de tempo, normalmente de duas ou menos temporadas no clube revelador.

Mas se os clubes equilibraram os cofres e conseguem fazer investimentos milionários como Vitinho no Flamengo (43 milhões), Borja no Palmeiras (33 milhões), Lucas Pratto no São Paulo (33 milhões), só para citar alguns nomes de grandes investimentos recentes, e se esses atletas são muito bem remunerados com salários na casa do milhão mensal, vide Diego Ribas, Pato, Lucas Lima, Rodriguinho e muitos outros.

Por que ainda existe a venda precoce para a Europa?

Os clubes podem até não conseguir competir com os bilhões chineses ou os petrodólares árabes, mas não é uma venda trivial que vai fechar o caixa no azul ao final da temporada.

O Flamengo vendeu Lucas Paquetá ao Milan, no ano passado, por mais de 100 milhões de reais, porém fechou com faturamento de 650 milhões em 2018, para um superávit de 145 milhões, ou seja, se mantivesse a joia da Ilha de Paquetá, ainda assim teria fechado o ano com lucro de 45 milhões de reais, um ótimo número.

Se em outros tempos o jogador não fosse tentar a vida nos clubes europeus para receber em Euros, corria o risco de após encerrar a carreira baixar seu padrão econômico e até passar por dificuldades financeiras, hoje qualquer jogador médio pode tranquilamente receber cerca de 500 mil reais por mês e ser ídolo de um grande clube brasileiro mesmo sendo um craque.

Dudu é o caso mais evidente no Brasil. Mesmo sendo um jogador normal, hoje tem vencimentos acima do meio milhão de reais por mês e com 3 títulos importantes pelo clube, já é considerado ídolo inconteste da torcida palmeirense.

Cássio, Gabigol, Fred, Luan, Victor, Gum, Jefferson, enfim, são outros exemplos de jogadores que passaram a maior parte de suas carreiras no Brasil ganhando muito bem financeiramente e idolatrados pelos torcedores.

Mesmo assim todo jovem que surge no cenário nacional e consegue destaque quer se transferir à Europa por conta do glamour de jogar em qualquer time do velho continente.

É claro que taticamente a Europa ultrapassou a América há anos, mesmo assim, jogar em um time grande do Brasil, ganhando um salário que garantirá a tranquilidade econômica das futuras gerações e com a possibilidade de se tornar ídolo de um clube centenário marcando seu nome na história daquela instituição, parece ser muito mais atrativo do que arrumar uma transferência qualquer para um Shakhtar, CSKA, qualquer time que não sejam os grandes de Inglaterra, Itália, Espanha e Alemanha ou escolher a China e o Mundo Árabe.

Quase sempre essas transferências se mostram um grande erro estratégico de carreira, um verdadeiro tiro no pé.

E esses jogadores logo voltam para o Brasil para jogarem no primeiro clube desesperado que para fugir de uma crise anuncia o novo reforço a peso de ouro.

Até firmar contrato com um gigante europeu para ser reserva é menos interessante do que ficar no Brasil.

Gabriel Jesus é exemplo disso.

Em 2016, depois de fazer uma temporada extremamente vencedora no Palmeiras, foi vendido por 130 milhões de reais ao Manchester City.

De acordo com o próprio jogador, a escolha foi feita por conta do telefonema direto de Pep Guardiola que insistiu para que o atacante escolhesse a proposta dos ingleses ao invés de optar por Real Madrid ou Barcelona que também enviaram propostas.

Na época com apenas 19 anos, Gabriel Jesus já era ídolo palmeirense e tinha até cântico especial da torcida.

Escolheu se aventurar na Europa e hoje amarga o banco de reservas do Manchester City, por opção do mesmo Guardiola que o convenceu a trocar o Verdão pelo Manchester.

Hoje poderia ser um dos maiores ídolos de todos os tempos do Palmeiras e seguindo sua média de gols, estaria entre os maiores goleadores do clube.

É possível notar nestes casos que não havia a necessidade do clube em vender, a diferença salarial também não justifica a vontade do jogador, portanto apenas o imaginário comum aos boleiros é capaz de explicar tantas transferências.

A estética do futebol europeu está arraigada nos jogadores brasileiros de tal maneira que o sucesso na carreira depende dessa transferência.

Lucas Lima é hoje o retrato desse fracasso imaginado que se torna real.

O meia surgiu tarde, aos 24 anos fez ótima temporada no Santos, portanto claramente um jogador para fazer carreira no Brasil pelo surgimento tardio (Leandro Damião é outro nesta categoria).

Lucas Lima não se contentou com a desinteresse do mercado europeu e acho que o problema fosse a ‘vitrine’.

Orientado por Neymar Pai, seu agente, forçou uma transferência ao Palmeiras com o intuito de conseguir a necessária visibilidade para chegar à Europa.

Porém, aos 28 anos, o jogador não tem mercado sequer no leste europeu e dependeria de uma temporada sensacional para conseguir um contrato na China.

Nem uma coisa, nem outra. Jogando mal, mesmo com salário de 800 mil reais ao mês, Lucas Lima é reserva do badalado elenco alviverde e não figura entre os destaques do futebol brasileiro a pelo menos 2 temporadas.

A estetização do futebol europeu no jogador brasileiro está contribuindo, entre outros fatores, para a queda do nível técnico do futebol brasileiro, a debandada de jovens talentos que poderiam construir novas idolatrias nos clubes cada vez mais carentes de ídolos e o achatamento da competitividade, com o Campeonato Brasileiro sendo disputado por baixo com diferenças cada vez menores entre campeões e rebaixados.

De nada vale o esforço de profissionalização dos clubes brasileiros se os jogadores ainda mantêm o ‘sonho europeu’ como se fosse um ‘sonho americano de sucesso’.

Enquanto isso, o futebol brasileiro se tornou o sonho de jogadores sul-americanos que veem nos estruturados clubes do Brasil a chance de fazer suas independências financeiras, além de ser uma vitrine maior para a Europa.

Atualmente a safra de Cotia que vem encantando a torcida são-paulina no Campeonato Paulista, é o novo alvo dessa cultura de transferências.

Por tudo que têm apresentado Igor Gomes, Antony e companhia, logo serão eles a deixarem o Brasil rumo a qualquer negócio que surgir na Europa e deixarão o São Paulo como novo clube formador que fica sem seus talentos.

Somente criação de uma cultura de que permanecer no Brasil é algo vantajoso para clube e jogador pode corrigir essa distorção em que o jogador prefere o anonimato na Europa à idolatria no Brasil.

Por enquanto, vivemos de contar a cifras das inúteis transferências.