O grito mudo de um semblante
alvinegro
Por Pedro Henrique Brandão*
Universidade do Esporte
12 de junho de 2025
As agruras de torcer pelo ABC nas
últimas três temporadas podem até não deixar espaço para sorrisos, mas moldam o
caráter da nova geração da Frasqueira
Na Arena das Dunas, sob um
dilúvio que bagunçou a peleja entre ABC e Anápolis e acabou por lavar o resto
da esperança até do mais confiante abecedista, um menino de olhos mais cansados
do que sugerem seus 10 anos assistiu a tudo.
E viu demais o que de menos o
clube do povo tem feito nos últimos anos.
Na arquibancada, o semblante do
garoto, mesmo em silêncio, gritava e ecoava no espaço e tempo.
Porque, às vezes, a dor mais
funda não faz barulho.
Apenas pesa.
E tem pesado feito chumbo em
resultados vexatórios: do 2 a 0 que virou 2 a 3 e terminou 3 a 3.
Uma sucessão de empates que,
apesar da igualdade em números, traduz uma sequência de derrotas no sentimento.
Contra o então lanterna Anápolis
— que por uma hora pareceu o Real Madrid —, o ABC sofreu três gols numa
eternidade em câmera lenta.
Sessenta minutos que se
arrastaram, empurrando o torcedor para um pesadelo anunciado.
Foi mais um empate com gosto de
desânimo.
Daqueles que se mastigam com
raiva e se engolem com tristeza.
Assim como foram as igualdades
com o CSA, no dia em que a barreira abriu.
Mesmo na estreia fora de casa
contra o temível São Bernardo, em que a vantagem sumiu numa desatenção nos
minutos finais.
Mas por que não lembrar do “oxo”
contra o Belo, que jogou por 11 minutos com um homem a menos e um goleiro
improvisado?
Isso sem falar na derrota de
virada em casa para o Ituano, no empate sem gols com o amputado Náutico, que
veio a Natal com seis desfalques e ficou com um homem a menos logo aos 3
minutos de jogo.
Era para entrar no G8, mas
despencou no vácuo que separa expectativa e realidade.
Onde flutua, perdido, o torcedor
incrédulo.
Na oitava rodada da Série C, o
ABC ainda não venceu em seus domínios. É o pior mandante da competição.
Jogar em casa deveria servir pra
respirar, mas, de uns tempos pra cá, o ABC só suspira, não inspira ninguém e
ainda faz quase parar de respirar quem ousa acreditar.
Desde 13 de abril de 2023, o
torcedor do Mais Querido conhece a angústia por nome, sobrenome, endereço e
CPF.
Aquele jogo contra o Grêmio, pela
Copa do Brasil, foi mais que uma eliminação: foi o estopim de uma implosão, foi
o portal para o abismo.
O Frasqueirão, que já foi
fortaleza, virou labirinto onde o ABC desconhece a si próprio.
Da sequência de 33 jogos invicto
— 1 ano e 3 meses sem perder como mandante —, restaram estatísticas roídas,
lembranças empoeiradas e saudades novas.
E, pra piorar o drama, os títulos
estaduais voaram em asas rubras.
Nem a mudança de ares resolveu.
Jogar na Arena das Dunas não
refrescou.
Pelo contrário: trouxe mais vento
contra.
Contra o Anápolis, não houve
casa.
Nem acaso.
Só o cansaço.
O menino da foto, talvez por
volta dos dez anos, já carrega um centenário de decepção no olhar.
E o pior: já entende de futebol
como um adulto.
Aprende cedo que nem sempre a
camisa que pesa e entorta varal tem o poder de endireitar elencos malformados.
Que a tradição não vence jogo. E
que até a lanterna, às vezes, brilha mais do que o Mais Querido.
Na próxima rodada, tem a Ponte
Preta fora de casa.
Líder da competição, apenas uma
derrota e que ainda não perdeu no Moisés Lucarelli.
Mais um capítulo da Série “S” de
sofrência para a Frasqueira.
O torcedor estará lá, de novo,
com a camisa como escudo e o grito de apoio para sustentar com paixão o time
que a lógica insiste em desafiar.
Porque torcer pro ABC virou isso:
um ato de fé em plena Série C.
Uma via-crúcis que parece não ter
fim. Uma prova de lealdade de quem acredita mesmo quando o time insiste em
desmentir.
O olhar sensível de Léia Ventura
eternizou a imagem que simboliza este tempo de agruras no coração da
Frasqueira.
Fica o grito do silêncio daquele
menino.
Aquele sofrimento sem som nem
fúria, porém mais expressivo que qualquer fria e desnecessária análise tática.
Tudo que se pode dizer sobre o
ABC nos últimos tempos, esse menino disse sem falar uma palavra.
Até porque faltam palavras para
explicar o inexplicável ABC de 2025.
*Pedro Henrique Brandão
Desde sempre apaixonado por
esportes...
Comentarista, repórter, apresentador, produtor e roteirista da Rádio Jovem Pan/Natal/RN e membro do Universidade do Esporte – projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Um comentário:
Sensacional o artigo. Sensacional a imagem!
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