sábado, junho 14, 2025

O grito mudo de um semblante alvinegro

Imagem: Léia Ventura para o Universidade do Esporte

O grito mudo de um semblante alvinegro

Por Pedro Henrique Brandão*

Universidade do Esporte

 12 de junho de 2025

As agruras de torcer pelo ABC nas últimas três temporadas podem até não deixar espaço para sorrisos, mas moldam o caráter da nova geração da Frasqueira

Na Arena das Dunas, sob um dilúvio que bagunçou a peleja entre ABC e Anápolis e acabou por lavar o resto da esperança até do mais confiante abecedista, um menino de olhos mais cansados do que sugerem seus 10 anos assistiu a tudo.

E viu demais o que de menos o clube do povo tem feito nos últimos anos.

Na arquibancada, o semblante do garoto, mesmo em silêncio, gritava e ecoava no espaço e tempo.

Porque, às vezes, a dor mais funda não faz barulho.

Apenas pesa.

E tem pesado feito chumbo em resultados vexatórios: do 2 a 0 que virou 2 a 3 e terminou 3 a 3.

Uma sucessão de empates que, apesar da igualdade em números, traduz uma sequência de derrotas no sentimento.

Contra o então lanterna Anápolis — que por uma hora pareceu o Real Madrid —, o ABC sofreu três gols numa eternidade em câmera lenta.

Sessenta minutos que se arrastaram, empurrando o torcedor para um pesadelo anunciado.

Foi mais um empate com gosto de desânimo.

Daqueles que se mastigam com raiva e se engolem com tristeza.

Assim como foram as igualdades com o CSA, no dia em que a barreira abriu.

Mesmo na estreia fora de casa contra o temível São Bernardo, em que a vantagem sumiu numa desatenção nos minutos finais.

Mas por que não lembrar do “oxo” contra o Belo, que jogou por 11 minutos com um homem a menos e um goleiro improvisado?

Isso sem falar na derrota de virada em casa para o Ituano, no empate sem gols com o amputado Náutico, que veio a Natal com seis desfalques e ficou com um homem a menos logo aos 3 minutos de jogo.

Era para entrar no G8, mas despencou no vácuo que separa expectativa e realidade.

Onde flutua, perdido, o torcedor incrédulo.

Na oitava rodada da Série C, o ABC ainda não venceu em seus domínios. É o pior mandante da competição.

Jogar em casa deveria servir pra respirar, mas, de uns tempos pra cá, o ABC só suspira, não inspira ninguém e ainda faz quase parar de respirar quem ousa acreditar.

Desde 13 de abril de 2023, o torcedor do Mais Querido conhece a angústia por nome, sobrenome, endereço e CPF.

Aquele jogo contra o Grêmio, pela Copa do Brasil, foi mais que uma eliminação: foi o estopim de uma implosão, foi o portal para o abismo.

O Frasqueirão, que já foi fortaleza, virou labirinto onde o ABC desconhece a si próprio.

Da sequência de 33 jogos invicto — 1 ano e 3 meses sem perder como mandante —, restaram estatísticas roídas, lembranças empoeiradas e saudades novas.

E, pra piorar o drama, os títulos estaduais voaram em asas rubras.

Nem a mudança de ares resolveu.

Jogar na Arena das Dunas não refrescou.

Pelo contrário: trouxe mais vento contra.

Contra o Anápolis, não houve casa.

Nem acaso.

Só o cansaço.

O menino da foto, talvez por volta dos dez anos, já carrega um centenário de decepção no olhar.

E o pior: já entende de futebol como um adulto.

Aprende cedo que nem sempre a camisa que pesa e entorta varal tem o poder de endireitar elencos malformados.

Que a tradição não vence jogo. E que até a lanterna, às vezes, brilha mais do que o Mais Querido.

Na próxima rodada, tem a Ponte Preta fora de casa.

Líder da competição, apenas uma derrota e que ainda não perdeu no Moisés Lucarelli.

Mais um capítulo da Série “S” de sofrência para a Frasqueira.

O torcedor estará lá, de novo, com a camisa como escudo e o grito de apoio para sustentar com paixão o time que a lógica insiste em desafiar.

Porque torcer pro ABC virou isso: um ato de fé em plena Série C.

Uma via-crúcis que parece não ter fim. Uma prova de lealdade de quem acredita mesmo quando o time insiste em desmentir.

O olhar sensível de Léia Ventura eternizou a imagem que simboliza este tempo de agruras no coração da Frasqueira.

Fica o grito do silêncio daquele menino.

Aquele sofrimento sem som nem fúria, porém mais expressivo que qualquer fria e desnecessária análise tática.

Tudo que se pode dizer sobre o ABC nos últimos tempos, esse menino disse sem falar uma palavra.

Até porque faltam palavras para explicar o inexplicável ABC de 2025.

*Pedro Henrique Brandão

Desde sempre apaixonado por esportes...

Comentarista, repórter, apresentador, produtor e roteirista da Rádio Jovem Pan/Natal/RN e membro do Universidade do Esporte – projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Um comentário:

jornal da grande natal disse...

Sensacional o artigo. Sensacional a imagem!