segunda-feira, maio 04, 2020

Doutrinando os primos ainda pequenos...

Imagem: Autorretrato

Doutrinação

Por Edmo Natan

Eu tenho um afilhado de 4 anos, Mateus.

Ele e o irmão dele, Vinícius, que está prestes a fazer 7, são meus priminhos pequenos.

Eu acho que é chegada a hora.

Preciso agir antes que oportunistas deem o bote.

É uma tarefa geralmente reservada aos pais, mas o deles não é daqui e tem outra cultura.

Uma coisa boa desse período de quarentena é que pude planejar cada detalhe para colocá-los no bom caminho e garantir ao menos uma grande alegria em suas vidas: irei torná-los torcedores do América.

Não basta dar camisa do time (o que está nos planos, é claro).

Vai muito além.

Como não estou presente diariamente na rotina deles, preciso atacar pontualmente e a atmosfera do estádio é um fator fundamental na estratégia traçada.

É necessário encantar os meus priminhos.

Parece tarefa fácil, afinal, são crianças, ora, mas não é bem assim.

O inimigo mora ao lado: tenho primos abecedistas que podem tentar levá-los para o lado alvinegro da força e eu sei bem o quanto isso é perigoso.

Já passei por isso antes.

E dói.

Uma ex — que não é exatamente uma ex, mas dizer que é alguém com quem tive um relacionamento de alguns meses e por quem ‘sofri’ é algo bem mais vergonhoso (vi isso no Twitter e me identifiquei real) — se dizia americana enquanto estava comigo.

Provavelmente, só pra me agradar.

Meses depois do nosso término, ela postou foto com um cara no Frasqueirão, seu novo namorado.

Me senti traído.

Como ela pôde fazer isso comigo??

Cadê a responsabilidade afetiva???

Não aguentei.

Com o peito carregado por uma mistura de desgosto e decepção, fui tirar satisfações.

Eu respeitava a decisão dela, é claro, mas precisava entender aquilo.

O que teria faltado?

Ela me explicou que estava verdadeiramente apaixonada e percebeu isso quando participou pela primeira vez daquele insuportável grito de “A — B — C — ÊÊÊÊ ÊÊÊÊ! A — B — C — ÊÊÊÊ ÊÊÊÊ!”.

De fato, até que é algo de fácil sonoridade.

Foi aí que então entendi que a culpa era minha.

Eu nunca pude ir a campo com ela, porque eu trabalhava nos jogos e meu dia sempre era muito atarefado antes, durante e depois das partidas.

Pois bem.

Esse erro eu não vou repetir com meus priminhos.

Está decidido!

Eles vão aos jogos comigo, assim que a pandemia passar!

Lembro-me bem de como agia aquele que me influenciou a ser americano, meu pai.

Ele usava de um artifício muito inteligente: o cachorro quente com refrigerante no intervalo do jogo.

Era ‘de lei’. Pouco antes de acabar o primeiro tempo, para evitar as filas, meu pai se levantava.

A gente (eu e meus irmãos) abria um pouco mais as pernas para ganhar espaço e guardar seu lugar nas arquibancadas de concreto no Machadão.

Ê, saudade!

Isso, sim, é memória afetiva!

Não lembro se o pessoal vende cachorro quente na Arena das Dunas, mas tem pizza e coxinha! 

Isso deve bastar.

Meus priminhos já assistiram à final das Olimpíadas (2016) e a alguns jogos da Copa do Mundo (2018) conosco.

Isso me lembra que preciso providenciar algumas mascotes alvirrubros para eles brincarem.

Aquele cavalinho/burrinho do Fantástico com a camisa do América seria perfeito!

Estou confiante!

Tenho meu pai ao meu lado e ele tem experiência nesse tipo de doutrinação.

Vai dar certo!

Ah, só um detalhe que não poderia passar despercebido: aquela minha ex teve uma filha com o agora marido abecedista.

E, claro, não deixa Tio Edmo — uma evidente ameaça persuasiva alvirrubra — chegar nem perto da criança.

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